“As Stablecoins são a ponte perfeita entre o dinheiro que conhecemos e o universo cripto”. – Setor de PD&I da Kryptus.
No começo de outubro vimos uma notícia alarmante de que o Relatório do Tesouro dos EUA estimava que as stablecoins poderiam secar cerca de US$ 6,6 trilhões em depósitos em bancos tradicionais. Mas como aconteceria isso dentro de uma das maiores economias mundiais? A resposta estaria nas moedas digitais lastreadas, ou seja, nas Stablecoins.
Mas afinal, o que são stablecoins e porque elas são tão perigosas assim para a economia americana tradicional? Calma, nós vamos chegar lá. Mas, antes de mais nada, vamos nos permitir dar um passo atrás e entender primeiro o que são as moedas digitais, para depois entendermos as Stablecoins. E, para isso, precisamos saber em que categoria do mercado financeiro elas se encontram.
Moedas digitais
Moeda digital é um termo amplo que se refere a qualquer forma de dinheiro ou ativo semelhante a dinheiro que existe apenas em formato eletrônico ou digital, sendo gerenciado, armazenado e trocado em sistemas de computador, especialmente pela internet, pode ser tanto dinheiro eletrônico como uma moeda fiduciária, centralizada, gerenciada por um banco ou, como uma moeda digital descentralizada, como o bitcoin. Ao contrário do dinheiro físico (cédulas e moedas), as moedas digitais são intangíveis. Elas não podem ser seguradas na mão e manipuladas, mas cumprem as funções essenciais da moeda: servir como meio de troca, unidade de conta e reserva de valor.
O termo moeda digital no universo das criptomoedas engloba diferentes categorias com mecanismos de controle, lastro e tecnologia muito distintos. Existem três categorias principais que resumimos a seguir:
1. Criptomoedas (Cryptocurrencies)
De natureza descentralizada, não são emitidas ou controladas por nenhum banco central ou autoridade única. Elas usam criptografia para garantir a segurança das transações e para controlar a criação de novas unidades. A informação é registrada em um livro-razão público distribuído chamado de Blockchain. Alguns exemplos de criptomoedas são: Bitcoin (BTC) e Ethereum (ETH). A principal característica delas é a alta volatilidade, pois seu valor é determinado unicamente pela oferta e demanda do mercado.
2. Stablecoins (moedas estáveis)
De natureza (relativamente) centralizada (por que são emitidas por empresas privadas) ou algorítmica. São um tipo de criptomoedas que usam criptografia e blockchain, mas seu valor é atrelado (lastreado) a um ativo estável, como o Dólar Americano, o Euro ou commodities. O objetivo delas é combinar a segurança e a velocidade da tecnologia blockchain com a estabilidade de uma moeda fiduciária (Fiat). Exemplos de Stablecoins são: Tether (USDT) e USD Coin (USDC).
3. Moedas digitais de Banco Central (CBDCs – Central Bank Digital Currencies)
De natureza centralizada e fiduciária. As CBDCs são uma versão digital de uma moeda nacional (Real, Dólar, Euro) que é emitida e garantida diretamente pelo Banco Central do país. Seu objetivo é modernizar os sistemas de pagamento, mantendo o controle monetário nas mãos da autoridade central. Alguns exemplos de CBDCs são: Digital Yuan (e-CNY) da China, o projeto do Real Digital (DREX)[1] no Brasil e o Sand Dollar nas Bahamas. A principal característica deles é uma forma de moeda com curso legal, diferente das criptomoedas privadas.
Sabemos que as moedas digitais são um tema muito interessante e abordaremos mais sobre Drex e Criptomoedas em outras publicações. Mas hoje vamos nos concentrar nas Stablecoins.
O que são as Stablecoins?
Stablecoins, como vimos resumidamente, acima, são criptomoedas projetadas para ter preço estável. Na prática, elas funcionam como uma ponte entre o mundo das criptos e o dinheiro tradicional. Geralmente estão atreladas a moedas como o dólar, euro ou até mesmo o real.
Provavelmente você já usou alguma sem saber: USDT, USDC ou até BRL Coin.
O objetivo da Stablecoin USDT, por exemplo, é que 1 token da stablecoin valha o mesmo que US$ 1,00 no mercado.
E para garantir essa paridade de valor, a empresa emissora promete manter reservas (que podem ser dólares em contas bancárias, títulos do Tesouro dos EUA ou outros ativos) em uma proporção próxima de 1:1. Ou seja, para cada 1 Stablecoin emitida, há US$ 1,00 em ativos de reserva. É esse lastro (e a confiança nele) que tenta manter a paridade.
Mas por que isso importa?
Stablecoins permitem fazer pagamentos rápidos, baratos, sem fronteiras e sem a volatilidade típica de ativos como Bitcoin e Ethereum.
Como funciona uma Stablecoin?
Existem três tipos principais de stablecoins no mercado:
- Lastreadas em Moeda Fiduciária (Ex.: USDT, USDC). Para cada token, há 1 dólar (ou real) em reserva.
- Lastreadas em Criptoativos (Ex.: DAI). São garantidas por criptomoedas como ETH, geralmente com sobrecolateralização[2].
- Algorítmicas (Ex.: UST, FRAX). Mantêm o preço por meio de algoritmos que controlam oferta e demanda — mas atenção, são as mais suscetíveis a colapsos.
Quais são as vantagens das Stablecoins
- Menor volatilidade.
- Transações rápidas e baratas.
- Ideal para remessas internacionais.
- Base para operações DeFi e Web3.
E o pânico das Stablecoins?
Mas qual é o real medo implícito no Relatório do Tesouro dos EUA? A razão do pânico é que, atualmente, os emissores das Stablecoins não podem, por lei, pagarem rendimentos a seus clientes que adquiriram Stablecoins com eles. Entretanto, não há regras para que as corretoras de criptomoedas ofereçam, indiretamente, juros a detentores de Stablecoins emitidas por terceiros.
E agora vem a razão do pânico: lembra que as Stablecoins americanas são lastreadas em dólar, né? Então, imagina se todos os detentores de Stablecoins resolvessem sacar seus depósitos bancários e convertê-los em Stablecoins comprando com corretoras? Isso poderia drenar US$ 6,6 trilhões em depósitos bancários, o que poderia levar o sistema bancário tradicional ao colapso, uma vez que enfraqueceria a criação de crédito em toda a cadeia econômica americana, levando por sua vez, a juros mais altos, menos empréstimos e custos maiores para sociedade em geral.
Este artigo foi produzido pelo setor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) da Kryptus, em parceria com o Gerente de Produtos Criptográficos, Thiago Alonso.
[1] Dia 05/11/2025 o Banco Central do Brasil anunciou descontinuação no atual DREX, visando remodelar suas regras de segurança e privacidade. Os novos estudos a respeito do tema deverão ser relançados em 2026.
[2] A sobrecolateralização em stablecoins é o sistema em que uma quantidade maior de ativos (colateral) é depositada como garantia do que o valor total das stablecoins emitidas. O objetivo principal é absorver a volatilidade dos ativos de garantia e garantir a paridade da stablecoin com o ativo de referência (como o dólar, por exemplo), mesmo em condições de mercado desfavoráveis.
